Que horas ela volta?

Eu vi o filme “Que Horas Ela Volta?” no ano passado, no cinema. Sessão normal, sala nem cheia, nem vazia — nada que caracterizasse um fracasso ou sucesso do filme, seja de crítica ou de público. Aliás, naquele momento, o filme não teve uma imensa repercussão.

Achei o filme simples, mas bem escrito e dirigido. Uma história do nosso cotidiano, que mostra o preconceito social velado que ainda predomina na sociedade — um preconceito que se esconde lá no quartinho da empregada e é “glamourizado” na sala de estar da patroa, que apresenta as “Vals” de nossas vidas como: “Ela é praticamente da família”.

Hoje, quando o filme começou a ser exibido na Rede Globo, eu disse no Twitter o seguinte:

Mas, após rever o drama, entendo um pouco do porquê disso. Parte daquela história me é real. Vivi um pouco daquilo, embora em menores proporções. Diferente de Val, minha mãe nunca precisou sair de sua cidade e partir para outro estado para trabalhar, mas talvez tenha deixado a si mesma, num primeiro momento, para batalhar pela sobrevivência dos filhos. Sim, minha mãe já foi empregada doméstica, acompanhante de idosos, e dormiu em muitos quartinhos de empregadas!

Não tenho vergonha de escrever sobre isso — é a minha história, a nossa história. E, muitas vezes, gestos como esses me mostraram que eu deveria trabalhar honestamente, e que qualquer outro caminho era errado. Claro que nunca precisei ir morar com minha mãe no local de trabalho dela e passar pelas situações que Val e Jéssica passaram.

Não sei se minha mãe passou por esse tipo de preconceito ou se “ela foi praticamente da família” de alguém. Nunca conversamos sobre isso. Ela viu o filme outro dia, mas sempre se mostrou interessada nos direitos trabalhistas das empregadas domésticas. As pessoas, muitas vezes, passam por certas situações na vida não por quererem, mas por necessitarem — e Val se sujeitava a certas coisas por necessidade.

Uma coisa que o filme mostra é que não há condição social que compre sentimentos. O que nos eleva é o sentimento, é o amor… E isso Val dava ao Fabinho, filho da patroa, que só percebeu que o filho tinha em Val o que ele mesmo não teve com a mãe — mas percebeu tardiamente, compensando esse hiato mandando o filho para a Austrália fazer intercâmbio. Mandando-o para mais longe. Dela.

Val faz o oposto! Como quem pede sua carta de alforria, ela pede demissão e vai morar com a filha. Vai ficar mais perto e dar o amor que ficou ausente por dez anos entre ela e a filha que, em silêncio, se perguntava: “Que horas ela volta?” — quando Val saiu em busca de algo melhor para a vida.

Mesmo com todo glamour, dinheiro e sofisticação, aquela família rica era desestruturada, vazia, calcada em falsos valores morais, sociais e sentimentais.

Voltando à minha mãe: o orgulho que tenho dela não tem tamanho! Ela é sensacional! Ela sempre voltou! Sempre!
Se ela teve que passar por muitas das situações mostradas no filme, mais ainda me orgulho, pois sei que ela colocou a necessidade e a felicidade dos filhos sempre à frente dela — e das suas vaidades!

O filme é grande! É denso! É verdadeiro! Por isso, teve grande repercussão lá fora, em diversos países da América Latina e da Europa. Dizem que ele deveria ter sido indicado ao Oscar. Não sei. Mas afirmo: Regina Casé está gigante no seu papel, na nossa Val! É a nossa história de cada dia! Por ser uma rotina, é banalizada quando ganha grande produção — mas é profunda dentro da gente.

O que cabe num quartinho é, talvez, muito grande para uma sala de estar!
O amor é tão inexplicável que não tem glamour, nem condição social, nem cor — mas é de um valor inestimável para quem o tem.

Autor: Tulio Rodrigues

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