A lição da Lista de Schindler

Antes de conhecer o Holocausto, para mim a maior manifestação de preconceito era contra os negros escravizados na época colonial, como no Brasil. Quem nunca estudou sobre a escravidão brasileira ainda no primário? O que lia nos livros didáticos parecia representar a mais absurda e brutal ignorância humana.

Essa percepção durou até eu assistir ao filme “A Lista de Schindler” e ler a famosa expressão “baseado em fatos reais“. O filme, que retrata o início da Segunda Guerra Mundial, mostra os nazistas de Hitler realocando judeus poloneses no chamado “Gueto de Cracóvia”.

Oskar Schindler era um empresário alemão, bon vivant e muito rico. Ele montou uma fábrica de panelas para o exército, utilizando mão de obra judia. O filme expõe as atrocidades cometidas por alemães e até poloneses contra judeus – execuções sumárias sem motivo, tratamentos desumanos. Não havia distinção por idade ou gênero: bastava ser judeu para sofrer.

Num determinado momento, as ordens eram exumar e queimar todos os corpos, enviando os sobreviventes para Auschwitz – campo onde morreu Olga Benário após ser entregue por Getúlio a Hitler. Schindler então funda uma fábrica de munições em Brněnec, sua terra natal na Tchecoslováquia. Subornando oficiais nazistas, consegue levar 1.100 judeus.

Por sete meses, a fábrica não produziu uma única munição – Schindler comprava de outros fornecedores. Esse esquema consumiu sua fortuna. Com a rendição alemã, Schindler, como membro do Partido Nazista, é forçado a fugir, deixando os judeus libertos – que ele sempre tratara como seres humanos.

O filme termina com sobreviventes colocando pedras no túmulo de Schindler – tradição judaica de gratidão. Ele se tornou quase uma figura divina por salvar não apenas mil vidas, mas gerações futuras. Enquanto isso, Hitler exterminou seis milhões de judeus.

Esta obra-prima de Steven Spielberg ganhou ainda mais profundidade quando adquiri o DVD com o documentário bônus “Vozes da Lista“, com depoimentos reais dos judeus salvos por Schindler. Spielberg, fundador da Shoah Foundation, dedicou-se a preservar testemunhos do Holocausto.

Reassistir ao filme após anos ainda me faz refletir: como podemos diferenciar seres humanos por cor, raça, religião ou preferências? Como existem pessoas capazes de matar por motivos tão torpes?

Se “A Lista de Schindler” choca pela crueldade nazista, também inspira com figuras como Oskar Schindler, que proporcionou finais felizes mesmo nas piores adversidades. Como disseram os judeus quando ele partiu: “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro“.

Eis uma lição histórica verdadeiramente “baseada em fatos reais“.

Autor: Tulio Rodrigues

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