Se todos fossem iguais a você, Vinícius, talvez o mundo fosse melhor, as pessoas seriam mais felizes e a miséria se transformasse em alegria. Essa felicidade que você tão bem retratou em canções, poesias e sonetos — sempre em diálogo com a tristeza e melancolia. Enquanto cantava que “é melhor ser alegre que ser triste“, também afirmava que “o amor só é bom se doer”.
Se todos fossem iguais a você, Vinícius, talvez nosso país fosse menos politicamente correto, menos corrupto, menos mecânico. Você que sempre navegou contra a maré do convencional, foi Vinícius em essência: poeta, letrista e, acima de tudo, autêntico. As milhares de imagens que restam de você mostram que o Vinícius por trás das câmeras era idêntico ao que se apresentava diante delas.
Se todos fossem iguais a você, Vinícius, o que seria de nós ao multiplicarmos sua essência? Seríamos melhores? O mundo melhoraria? Conseguiríamos viver como poetas, como você viveu — ou como bem definiu Drummond?
Se todos fossem iguais a você, Vinícius, o mundo respiraria paixão e transbordaria amor. Afinal, você percorreu os labirintos da vida guiado pela paixão! Em sua busca, para ela e por ela! Admiro essa jornada que persistiu até seu último dia. Talvez tenha errado nessa busca, talvez tenha acertado — mas certamente o prazer da jornada foi sua maior recompensa. O que faria Vinícius, enfim, ao encontrar a paixão absoluta?
Se todos fossem iguais a você, Vinícius, a generosidade seria virtude natural, não obrigação. Além de artista genial, foi parceiro leal para seus colaboradores, amigo verdadeiro para seus companheiros…
Se todos fossem iguais a você, Vinícius, talvez tivéssemos maior capacidade de renascer, de romper com o passado e nos recriar sem perder a essência. Impressionante como você se reinventou tantas vezes, transbordando essa energia única em cada fase de sua obra. Foi samba, foi bossa, foi afro, foi “o branco mais preto do Brasil“! Foi Vinícius! Plural em nome e sobrenome artístico: Vinícius de Moraes! Mas tão singular que é impossível imaginar outros como você.
Vinícius, não tive o privilégio de ser seu contemporâneo — nasci quatro anos após sua partida. Mas sua obra sempre me acompanhou. Lembro-me de ouvir “A Casa” na infância, sem ainda conhecer a grandeza de seus criadores. Anos depois, redescobri seu universo musical através de Chico Buarque. Ali encontrei o poeta, o dramaturgo, o cronista… Tantos Vinícius em um só! Eis a prova de seu legado, que permanece e se propagará por gerações através de milhares de admiradores. Vinícius, você é eterno!
Viva Vinícius!
Autor: Tulio Rodrigues