No próximo sábado, dia 19, Vinícius de Moraes completaria 100 anos se estivesse vivo. A data merece e vem sendo lembrada com justa homenagem. Aqui mesmo no blog criei uma série especial – “Vinícius 100 anos” – com treze de suas poesias declamadas por mim, que venho postando mensalmente.
Posso afirmar que, em certa época de minha vida, a obra de Vinícius foi minha grande companheira. Diante da solidão, sua poesia e música me faziam companhia. Quantas criações minhas não tiveram Vinícius como inspiração?
Jamais alguém cantou e versejou o amor com tanta maestria quanto Vinícius. Dono de um espírito apaixonado pelas mulheres e pela vida, ele nos brindou com sonetos imortais, poesias e canções históricas. “Para Viver um Grande Amor“, “Poema aos Olhos da Amada“, “Soneto de Separação“, “Soneto do Amor Total“, “Pela Luz dos Olhos Teus“… São tantas obras-primas!
Sempre camaleônico, Vinícius ia além do amor em poesias como “Pátria Minha“, “Balada do Mangue“, “A Hora Íntima“, “Poética I“, “Soneto de Intimidade“… Criou a bossa nova, os “Afro-sambas” com Baden Powell, e assim seguiu por toda a vida, em constante reinvenção.
Para mim, Vinícius representa a perfeição na música e na poesia. Uma referência ímpar que influencia tanto minha escrita quanto minha vida. O mundo seria mais vazio sem sua passagem por ele. Passou, fez história e tornou-se imortal.
Que no dia 19 possamos ouvir bossa nova, “Afro-sambas“, declamar suas poesias e sonetos em reverência ao seu legado cultural. Que Ipanema amanheça resplandecente, que a Rua Vinícius de Moraes esteja mais iluminada. E se eu bebesse, me embriagaria de whisky — uma garrafa inteira nesse dia, em memória de quem batizou a bebida como “o melhor amigo do homem“, o “cão engarrafado“.
Viva a obra de Vinícius!
Viva o legado de Vinícius!
Viva Vinícius!
Autor: Tulio Rodrigues
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Hora íntima
Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal…
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Vinícius de Moraes
Rio, 1950
Texto extraído do livro “Vinicius de Moraes – Poesia Completa e Prosa”, Editora Nova Aguilar – Rio, 1998, página 455.